Lula x Bolsonaro: o que mostram os números da segurança pública nos dois governos
Segurança pública melhora em alguns indicadores, mas violência contra mulheres e golpes digitais avançam
Os dados mais recentes mostram que a segurança pública brasileira não pode ser avaliada apenas pela quantidade de homicídios. Embora as mortes violentas intencionais e algumas modalidades de roubo tenham recuado, feminicídios, violência contra mulheres e crianças, golpes digitais e mortes decorrentes de ações policiais continuam entre os principais desafios do país.
Mortes violentas atingem menor nível da série histórica
Em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro (PL), o Brasil registrou aproximadamente 47,5 mil mortes violentas intencionais.
A trajetória de queda continuou nos anos seguintes e se aprofundou durante os três primeiros anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em 2025, foram contabilizadas 40.775 mortes violentas intencionais, com taxa de 19,1 ocorrências por 100 mil habitantes.
Foi a primeira vez, desde o início da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que o país ficou abaixo da marca de 20 mortes violentas por 100 mil habitantes. Na comparação com 2024, a redução foi de 8,2%.
Os números, porém, precisam ser analisados considerando a divisão de responsabilidades na área. A segurança pública envolve União e estados, enquanto as polícias Civil e Militar estão subordinadas aos governos estaduais.
Ainda assim, os indicadores mostram que a redução da violência letal prosseguiu durante o atual governo e alcançou, em 2025, o menor patamar já registrado pelo FBSP.
Violência contra mulheres segue em sentido contrário
Quando a análise se concentra na violência contra as mulheres, o cenário é diferente.
Em 2022, 3.806 mulheres foram vítimas de homicídio no Brasil, segundo o Atlas da Violência, o equivalente a uma taxa de 3,5 mortes por 100 mil mulheres.
Esse número não deve ser confundido com feminicídio. Nem todo assassinato de uma mulher é classificado dessa forma. Em 2022, por exemplo, o número de feminicídios ficou abaixo do total de homicídios femininos.
Nos anos seguintes, porém, os feminicídios permaneceram em níveis elevados. Em 2025, foram registradas 1.571 vítimas, aumento de 4% em relação ao ano anterior e maior número da série histórica acompanhada pelo FBSP.
Ao mesmo tempo, a taxa geral de homicídios de mulheres caiu 5,5% em 2025. A diferença entre os indicadores chama atenção: enquanto os assassinatos de mulheres diminuíram no conjunto, os crimes classificados como feminicídio aumentaram.
Também cresceram os registros de agressões, ameaças, violência psicológica, perseguição, tentativas de feminicídio e descumprimento de medidas protetivas.
Ao divulgar o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, o FBSP destacou o contraste entre a queda dos indicadores gerais de violência letal e o aumento da violência dentro dos lares contra mulheres, crianças e adolescentes.
Menos roubos, mais golpes digitais
Nos crimes contra o patrimônio, o país passa por uma mudança no perfil da criminalidade. Diversas modalidades tradicionais de roubo vêm apresentando redução, enquanto estelionatos e fraudes digitais avançam rapidamente.
Parte dos crimes patrimoniais migrou das ruas para o ambiente virtual. Aplicativos bancários, redes sociais, falsas centrais de atendimento e outros mecanismos digitais passaram a ser utilizados com maior frequência por criminosos.
A mudança representa um novo desafio para as forças de segurança, que precisam lidar não apenas com crimes praticados presencialmente, mas também com organizações e fraudadores que atuam à distância e podem atingir vítimas em diferentes estados ou até países.
Violência política ganhou destaque no período eleitoral
A violência política também ocupou espaço no debate sobre segurança pública durante o período de maior polarização eleitoral, especialmente em 2022.
Embora não exista uma série policial nacional que permita comparar diretamente os governos Bolsonaro e Lula nesse indicador, alguns episódios se tornaram símbolos da intolerância política daquele período.
Um dos casos mais graves ocorreu em julho de 2022, em Foz do Iguaçu (PR). O guarda municipal e tesoureiro do PT Marcelo Arruda foi morto a tiros pelo policial penal federal Jorge Guaranho, apoiador de Jair Bolsonaro, durante sua festa de aniversário de 50 anos, que tinha decoração com referências ao PT e ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Outros episódios não terminaram em morte, mas também evidenciaram o clima de hostilidade. Em outubro de 2022, entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais, apoiadores de Lula foram agredidos em uma lanchonete de Goiânia após uma discussão política. Imagens registraram homens identificados como apoiadores de Bolsonaro utilizando socos, chutes e mesas contra integrantes do grupo. O caso foi investigado pela Polícia Civil.
Já em janeiro de 2023, poucos dias depois da posse de Lula, um participante de uma carreata bolsonarista avançou contra mulheres na região central de São Paulo. Entre as vítimas estava a jornalista Clélia Cardim, de 73 anos, que carregava uma bandeira de Lula.
Esses episódios revelam uma dimensão da violência que não aparece quando a segurança pública é analisada exclusivamente por meio de homicídios, roubos e furtos. A radicalização política também produziu agressões, ameaças e, em casos extremos, mortes motivadas por divergências políticas.
Organizações da sociedade civil passaram a monitorar assassinatos, atentados, agressões e ameaças relacionadas à atividade política para preencher parte dessa lacuna. Esses levantamentos, contudo, utilizam metodologias próprias e não devem ser comparados diretamente com as estatísticas oficiais de criminalidade.
O que os números revelam sobre Lula e Bolsonaro
A comparação entre os governos mostra um cenário mais complexo do que o discurso político costuma apresentar.
A queda das mortes violentas começou antes do governo Bolsonaro, continuou durante seu mandato e foi aprofundada nos três primeiros anos da administração Lula, chegando, em 2025, ao menor patamar da série histórica do FBSP.
Isso, porém, não significa que o Brasil tenha superado seus problemas de segurança pública.
O retrato até 2025 é marcado por contrastes: o país registra menos mortes violentas no conjunto da população e atingiu seu menor nível histórico sob Lula, mas continua enfrentando níveis preocupantes de violência contra mulheres, crianças, adolescentes e outros grupos mais expostos.
Os números indicam, portanto, que a avaliação da segurança pública precisa ir além dos homicídios. A redução da violência letal convive com novos padrões de criminalidade e com problemas persistentes que exigem políticas específicas de prevenção, investigação e proteção das vítimas.






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