‘Brasil não pode aceitar interferências de outros países em assuntos internos’, diz Lula
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que mantém uma relação “civilizada”
Uma entrevista de Lula à TV Record, realizada em 23 de agosto, na qual o presidente tratou de temas internacionais e nacionais.
Os principais pontos são:
- Relação com Donald Trump: Lula afirmou manter uma relação civilizada e respeitosa com o presidente norte-americano, mas rejeitou interferências dos Estados Unidos em assuntos internos do Brasil.
- Tarifas e medidas contra o Brasil: criticou os argumentos usados pelo governo Trump para justificar medidas comerciais e afirmou ter contestado diretamente essas justificativas.
- Cooperação com os EUA: disse estar disposto a ampliar a parceria no combate ao crime organizado e na exploração de minerais críticos e terras raras, defendendo que o Brasil agregue valor aos recursos dentro do país.
- Conflitos internacionais: demonstrou preocupação com as guerras e com o aumento das disputas econômicas provocadas pela imposição de tarifas.
- Eleições de 2026: Lula criticou a influência das redes sociais na política e disse sentir “saudade” de disputas eleitorais anteriores, citando adversários como Fernando Henrique Cardoso e José Serra.
- Investigações envolvendo o filho: afirmou que ninguém está acima da lei e que, caso sejam comprovadas irregularidades envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, ele deverá responder pelos atos.
- Segurança pública: defendeu a criação de um Ministério da Segurança Pública e maior integração entre União, estados e municípios.
- Economia: destacou a redução do desemprego e da inflação, mas reconheceu que os juros elevados continuam pressionando as famílias.
- Outros temas: também mencionou a escala 6×1, a chamada “taxa das blusinhas” e medidas de combate ao feminicídio.
Em síntese, Lula tentou apresentar uma postura de diálogo com os Estados Unidos, especialmente com Trump, ao mesmo tempo em que reforçou a defesa da soberania brasileira e de uma política externa independente. No cenário interno, aproveitou a entrevista para defender seu governo, criticar a atual polarização política e abordar questões de segurança, economia e as investigações envolvendo seu filho.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que mantém uma relação “civilizada” e “respeitosa” com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas criticou medidas adotadas pelo governo estadunidense e rejeitou qualquer ingerência externa nos assuntos brasileiros. “O Brasil não pode aceitar interferências de outros países em seus assuntos internos”, declarou à jornalista Mariana Godoy, durante entrevista à TV Record, neste domingo (23/08), em Brasília. Na entrevista, Lula fez uma distinção entre sua relação com Trump e a atuação de integrantes do governo norte-americano. “Eu não sei se é o governo norte-americano, se é o Trump ou se é a assessoria do Trump. Eu, às vezes, tenho a impressão de que o Trump é bem melhor na relação política que a sua assessoria”, afirmou.
Lula disse ter contestado diretamente com Trump os argumentos utilizados para justificar as medidas contra o Brasil. “Eu disse ao presidente Trump que as bases sobre as quais eles tomaram as medidas que tomaram são mentirosas”, relatou.
“Nós temos os menores índices de desmatamento da história do Brasil e eu nasci na minha vida política combatendo o trabalho escravo, portanto eu não posso admitir que alguém diga que vai punir o Brasil por conta do trabalho escravo. Eu não posso fiscalizar os outros países”, acrescentou, ao afirmar que, no fundo, Trump pretendia atingir a China. Cooperação
Apesar das divergências, Lula disse que o Brasil está disposto a ampliar a cooperação com Washington no combate ao crime organizado. “Eu disse para o Trump: o Brasil está disposto a trabalhar junto com os Estados Unidos no combate ao crime organizado. Aliás, eu entreguei um documento tudo escrito para ele”, explicou. O presidente também afirmou ter apresentado a Trump uma proposta de cooperação na exploração de minerais críticos e terras raras, mas ressaltou que o Brasil pretende agregar valor aos recursos naturais em território nacional, em vez de se limitar à exportação de matérias-primas.
“Disse para o Trump que nós estamos dispostos a trabalhar com ele na questão da exploração de matérias críticas e terras raras. Só que, desta vez, a gente não vai ser exportador de matéria-prima. Nós queremos transformar aqui dentro”, afirmou.
Segundo Lula, a estratégia passa pela utilização desses recursos para desenvolver a indústria nacional. “Para produzir celular, para produzir bateria elétrica, para produzir chips. Nós não queremos ser exportador de matéria”, completou. “E eu disse para ele que, além disso, a gente quer ter um comércio muito, muito sério com os Estados Unidos.”
Guerras e tarifas
A relação bilateral não foi o único tema internacional abordado. Lula disse ter discutido com Trump os conflitos armados e as tensões econômicas internacionais. “Olha, eu conversei sobre mais assuntos com o Trump. É importante só dizer para a sociedade brasileira: eu estou preocupado com os conflitos armados, porque nós temos dois conflitos hoje”, disse.
“Nós temos um conflito armado que envolve vários países, é a guerra na Rússia, é a guerra no Irã, é Israel que continua matando o povo palestino, ou seja, perspectiva de conflitos em muitos outros países”, afirmou.
E nós temos ainda a guerra econômica, com o presidente dos Estados Unidos impondo tarifas ao bel-prazer a todo mundo”, declarou. Segundo ele, os dois assuntos foram tratados também em conversas com os presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin. “Então, são dois temas sérios que eu conversei com o Xi Jinping, com o Trump e com o Putin.”
Lula ressaltou ainda a importância histórica das relações entre Brasília e Washington. “Além de os Estados Unidos serem tecnologicamente importantes, economicamente importantes, militarmente importantes, nós temos 203 anos de relação diplomática. Somos as duas maiores democracias do hemisfério”, declarou, ao afirmar ter dito a Trump: “nós somos dois homens de 80 anos de idade. Nós precisamos dar bom exemplo ao resto do mundo.”
‘Saudade’ das antigas disputas eleitorais
Lula também criticou a deterioração do debate político no Brasil e disse sentir “saudade” das disputas eleitorais de décadas anteriores,. O presidente atribuiu parte da perda de qualidade da política à influência das redes sociais e criticou candidaturas construídas a partir da lógica de “lacrar” na internet.
Lula recordou sua primeira disputa pela Presidência, em 1989 — primeira eleição direta para o cargo após o fim da ditadura militar —, quando enfrentou nomes como Ulysses Guimarães, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), e Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista (PDT). O presidente também disse sentir “saudade” de enfrentar adversários como Fernando Henrique Cardoso e José Serra.
Para Lula, a internet contribuiu para uma mudança na qualidade do debate e na própria percepção sobre o que é necessário para disputar a Presidência da República. “Há pessoas que acreditam que podem concorrer como candidatos graças à internet. Há pessoas que acreditam que fazer piadas na internet ou causar sensação na internet lhe dá o direito de ser presidente da República. Ser presidente é outra coisa. Está tomando decisões sobre assuntos sérios”, afirmou.
“A Internet permite que criminosos se façam notar, às vezes com mais força do que pessoas honestas”, acrescentou. Apesar das críticas, Lula defendeu a participação política e a importância do voto, alertando para o risco de a rejeição generalizada à política deixar as decisões nas mãos de minorias que comparecem às urnas.
A entrevista coincidiu com o primeiro debate presidencial da disputa, organizado pelo Grupo Bandeirantes. Lula não participou do encontro, assim como seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro. O ex-governador Romeu Zema também desistiu de participar na última hora. Com as ausências, o debate reuniu metade dos convidados inicialmente previstos, entre eles Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury.
Questões internas
Durante a entrevista, Lula também comentou as investigações envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva. Ele disse que ninguém está acima da lei, defendendo que, caso sejam comprovadas irregularidades, os responsáveis deverão responder por seus atos. “Todos nós somos obrigados a agir corretamente. Se alguém está agindo de forma equivocada, de forma errada, esse alguém tem que ser investigado. Não sou um presidente que tenta proibir investigação. Eu não ameaço mandar ministro embora. Investigue-se”, disse.
“Isso vale para o meu filho, vale para qualquer pessoa. Ninguém está impune se cometeu erro. Meu filho sabe que, se ele cometeu erro, ele vai ser julgado, vai ser punido ou inocentado. Ele tem que provar a inocência dele”, declarou.
Lula também defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública seja aprovada pelo Congresso Nacional. A criação da pasta deverá ser acompanhada de mais investimentos federais no setor e de uma atuação integrada entre União, estados e municípios.
“Nós temos que convencer os meus meninos da Fazenda, do Planejamento, de que vamos precisar de muito dinheiro para garantir um suporte de trabalhar aliado com governo do estado, com prefeituras, utilizando a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, a Polícia Penal, para que a gente possa, definitivamente, resolver o problema da segurança pública”, afirmou.
“É muito fácil a segurança pública chegar num bairro e matar 10, 15 pessoas, e está resolvido o problema. Não está resolvido. Porque o responsável por aqueles pobres estarem na bandidagem mora em apartamento de cobertura, ou mora em condomínio chique. Eles não aparecem”, acrescentou.
Na economia, ele destacou a queda do desemprego e da inflação, mas reconheceu que os juros elevados continuam pesando sobre as famílias brasileiras. Lula também abordou o fim da escala de trabalho 6×1, a chamada “taxa das blusinhas”, além de medidas de enfrentamento do seu governo contra o feminicídio.





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