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O que aconteceu no país da América do Sul que adotou o 'modelo Bukele' de combate à violência

Publicada em: 02/08/2026 09:35 -

 

 O presidente do Equador, Daniel Noboa ter adotado uma estratégia de combate ao crime inspirada em medidas implementadas por Nayib Bukele, os resultados no Equador têm sido limitados devido às diferenças estruturais entre os dois países.

Os principais fatores destacados são:

  • Aumento da violência: Embora a militarização tenha reduzido inicialmente alguns indicadores, especialmente nos presídios, o Equador registrou 9.216 homicídios em 2025, um aumento de 30,48% em relação a 2024, tornando o período um dos mais violentos da história do país.
  • Resultados mistos: Houve queda de 40% nas denúncias de extorsão e uma pequena redução nos casos de sequestro, mas o crescimento dos homicídios colocou em dúvida a eficácia da estratégia de segurança.
  • Modelo inspirado em Bukele: O governo equatoriano investiu na militarização, construiu a penitenciária La Encuentro, ampliou estados de exceção e reforçou operações para retomar o controle do território.
  • Diferenças entre Equador e El Salvador: Especialistas afirmam que copiar o modelo salvadorenho é difícil porque:
    • O Equador enfrenta organizações ligadas ao narcotráfico internacional, com grande capacidade financeira, enquanto as gangues salvadorenhas tinham outra estrutura.
    • O território equatoriano é cerca de 13 vezes maior, possui fronteiras extensas, áreas amazônicas de difícil acesso e maior diversidade geográfica, fatores que favorecem a atuação criminosa.
  • Críticas de especialistas: Pesquisadores afirmam que Noboa reproduziu principalmente a "estética" da política de Bukele, exibindo criminosos presos em condições rigorosas e construindo uma megapenitenciária semelhante ao Centro de Confinamiento del Terrorismo (Cecot). No entanto, ressaltam que a prisão equatoriana tem capacidade para apenas 740 detentos, muito inferior às 20 mil a 30 mil vagas do Cecot, o que limita seu impacto.
  • Fragmentação do crime organizado: Diferentemente de El Salvador, onde havia maior centralização das gangues, os grupos criminosos equatorianos estão cada vez mais fragmentados. Segundo análises citadas na reportagem, o governo declarou guerra a 22 organizações, mas atualmente enfrenta um número ainda maior de facções.
  • Expansão territorial: As organizações criminosas ampliaram suas atividades para além do tráfico de cocaína, passando a atuar também em mineração ilegal, tráfico de pessoas e armas, lavagem de dinheiro e extorsão. De acordo com a análise mencionada, esses grupos já estariam presentes em mais de 150 dos 222 cantões do Equador.

Em síntese, a reportagem conclui que, embora o governo tenha adotado medidas semelhantes às de El Salvador, especialistas avaliam que as características do crime organizado, do território e da realidade social do Equador tornam muito mais complexa a obtenção dos mesmos resultados observados no modelo salvadorenho.

 

A avaliação de especialistas é que o avanço do crime organizado no Equador não pode ser explicado apenas pela atuação das facções criminosas, mas também pela fragilidade das instituições e pela colaboração de setores da própria sociedade.

A pesquisadora Karen Sichel argumenta que o governo equatoriano enfrenta um desafio que vai além da capacidade de formular políticas públicas. Segundo ela, o Estado trata o crime organizado apenas como um inimigo a ser combatido militarmente, quando, na realidade, o fenômeno é sustentado por uma ampla rede de apoio.

Para Sichel, o crime organizado não teria alcançado tamanha expansão no país sem a participação de agentes públicos e privados, incluindo políticos, servidores, juízes, promotores, advogados, tabeliães, contadores e profissionais do mercado imobiliário, que, de diferentes formas, facilitam sua atuação.

Embora o governo do presidente Daniel Noboa sustente que não negocia com organizações criminosas e tenha reforçado a presença de militares e policiais em todo o território nacional, as facções ampliaram sua área de influência. Inicialmente concentradas na região costeira, por causa da importância estratégica dos portos para o tráfico de drogas, elas passaram a atuar também na Serra, na Amazônia e até nas Ilhas Galápagos.

Em seus estudos, Sichel elaborou mapas sobre a incidência dos crimes ligados ao crime organizado e concluiu que praticamente todas as atividades econômicas de valor podem ser exploradas pelas organizações criminosas. Entre os exemplos citados está o tráfico ilegal de tubarões nas Ilhas Galápagos.

Na avaliação da pesquisadora, a militarização da segurança pública é insuficiente para enfrentar o problema. Ela defende o fortalecimento das instituições, especialmente do sistema de Justiça, como condição essencial para reduzir a influência das organizações criminosas.

Outro elemento central dessa estrutura é a lavagem de dinheiro. Segundo o Observatório Equatoriano de Crime Organizado, esse tipo de crime funciona como o principal mecanismo para dar aparência de legalidade aos recursos obtidos com atividades ilícitas, como o narcotráfico, a mineração ilegal e a extorsão.

O líder técnico do observatório, Byron Villagómez, afirma que as organizações criminosas utilizam brechas da economia formal para legalizar seus recursos e reinvesti-los em novos negócios. Entre os setores mais vulneráveis estão o mercado de veículos usados, o setor imobiliário, a agricultura e a pesca.

Villagómez destaca ainda que essa integração entre economia legal e ilegal depende da atuação dos chamados "facilitadores profissionais". Advogados, por exemplo, podem ser responsáveis pela constituição de empresas de fachada utilizadas para ocultar patrimônio, enquanto tabeliães participam do registro formal dessas empresas junto aos órgãos públicos.

Karen Sichel ressalta que os colaboradores do narcotráfico nem sempre apresentam o perfil associado às facções criminosas. Segundo ela, muitos são profissionais qualificados, com formação universitária, que utilizam seus conhecimentos para favorecer as organizações criminosas em troca de ganhos financeiros.

 

A desaceleração econômica enfrentada pelo Equador desde 2023 e o agravamento das condições sociais também são apontados como fatores que favorecem a expansão das economias ilícitas. Com a redução das oportunidades de emprego e renda no mercado formal, atividades criminosas passam a ocupar esse espaço, oferecendo alternativas econômicas em regiões vulneráveis.

Para Roberto Andrade, ex-diretor da Unidade de Análise Financeira e Econômica (UAFE), a corrupção e a lavagem de dinheiro são pilares que sustentam o avanço do crime organizado.

"A corrupção é transversal e, junto com a lavagem de dinheiro, é o que permite que essas atividades criminosas prosperem."

Segundo ele, nos últimos anos o Equador passou a adotar uma estratégia mais direcionada para combater a lavagem de dinheiro. Em vez de concentrar esforços apenas no fortalecimento institucional e na capacitação de agentes públicos, o foco passou a ser a identificação de casos prioritários para investigação, tornando a atuação estatal mais objetiva.

Segurança privatizada

O recorde de homicídios registrado em 2025 também evidenciou a ampla circulação de armas de fogo no Equador, onde o tráfico de armamentos se consolidou como um importante mercado ilícito.

De acordo com o Observatório Equatoriano de Crime Organizado, entre 2020 e junho de 2025 foram registrados 29.305 homicídios dolosos no país, dos quais 83,4% foram cometidos com armas de fogo, segundo dados do Ministério do Interior.

A pesquisadora Carla Álvarez, do Instituto de Altos Estudos Nacionais, explica que, até o início desta década, o Equador mantinha uma das legislações mais restritivas da América Latina em relação às armas. Esse cenário começou a mudar após a escalada da violência nos presídios e nas ruas.

Em abril de 2023, o então presidente Guillermo Lasso autorizou o porte e a importação de armas, além de permitir que agentes armados de empresas de segurança privada atuassem em apoio às forças policiais.

Para Álvarez, essa mudança inaugurou um processo de privatização da segurança, aprofundado posteriormente durante o governo de Daniel Noboa.

"A segurança deixou de ser pensada como um bem público, um direito da população, e passou a ser tratada como um privilégio particular. Se você tem uma arma, pode se proteger; se pode pagar por segurança privada, também consegue se proteger."

A pesquisadora destaca ainda que Equador e El Salvador compartilham características semelhantes nesse campo, como a expansão das empresas privadas de segurança e falhas históricas na fiscalização dos arsenais dessas companhias.

Segundo Álvarez, esse contexto favoreceu o desvio de armas para o mercado ilegal por meio de empresas de segurança privada. Em alguns casos, essas empresas chegaram a ser controladas por líderes de organizações criminosas, ampliando a capacidade operacional das redes criminosas e dificultando o controle estatal sobre a circulação de armamentos.

 

Direitos humanos e liberdade de imprensa sob pressão

Na área de segurança, Noboa também seguiu uma medida adotada por Bukele ao autorizar o uso de armas apreendidas do crime organizado. Em abril de 2022, El Salvador passou a reutilizar armamentos, dinheiro e bens confiscados de gangues para fortalecer o combate às próprias organizações criminosas.

Para a especialista Álvarez, porém, a iniciativa contraria princípios técnicos das forças de segurança. Segundo ela, a padronização do armamento é essencial para facilitar o abastecimento, a manutenção e o controle dos arsenais. Apesar disso, reconhece que a proposta tem forte apelo popular por transmitir a ideia de que o Estado utiliza os próprios recursos dos criminosos contra eles.

Na avaliação da pesquisadora, o debate sobre armas no Equador deixa de lado questões estruturais, como políticas de desarmamento e prevenção da violência. "A questão das armas é fundamental, mas o desarmamento não faz parte do debate público. Isso também reflete uma simplificação da realidade, baseada na ideia de 'bons e maus', 'criminosos e não criminosos'. E essa simplificação faz com que deixemos de questionar outros fatores que influenciam a violência", afirma.

Além das políticas de segurança, o governo de Noboa também enfrenta críticas relacionadas aos direitos humanos e à liberdade de imprensa. Assim como ocorreu em El Salvador sob o governo de Bukele, o presidente equatoriano entrou em conflito com instituições e setores da sociedade que questionaram suas ações.

Um dos episódios mais emblemáticos envolveu a Corte Constitucional do Equador, que concluiu que a situação de violência no país não preenchia os requisitos legais para ser classificada como um conflito armado interno, contrariando a posição do Executivo.

Organizações de direitos humanos afirmam que o ambiente de atuação também se tornou mais hostil. Billy Navarrete, presidente da Comissão Permanente em Defesa dos Direitos Humanos (CDH), em Guayaquil, relata que defensores passaram a ser alvo de ataques e estigmatização.

"O próprio governo nos chamou de antipatriotas, e o caso de Mónica Silva Koniuszek [ativista polonesa encontrada morta na província de Santa Elena], assim como outros crimes contra defensores de direitos humanos, demonstra as dificuldades enfrentadas por quem atua em campo", afirma.

Segundo Navarrete, esse discurso extrapolou o ambiente político e passou a fazer parte do cotidiano da população. "Quando entro em um táxi, o motorista diz: 'Você é aquele que defende bandidos'. É claro que as pessoas estão angustiadas com o nível de violência, e nós acabamos ficando no meio dessa angústia, como alvo de ataques", relata.

A situação da liberdade de imprensa também preocupa entidades internacionais. De acordo com Artur Romeu, diretor para a América Latina da Repórteres sem Fronteiras (RSF), o Equador registrou uma das maiores quedas no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026. O país perdeu 31 posições em relação ao ano anterior e passou a ocupar o 125º lugar entre 180 nações avaliadas. Em 2022, figurava na 68ª colocação, evidenciando um retrocesso significativo nas condições para o exercício do jornalismo.

 

Em seu relatório sobre o Equador de 2025, a Human Rights Watch afirmou que a resposta do governo ao crime organizado resultou em graves violações de direitos humanos por parte das forças de segurança, incluindo execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias e maus-tratos.

A organização destacou como um dos casos mais emblemáticos a tortura e a morte de quatro meninos que desapareceram em dezembro de 2024.

As críticas também vieram das Nações Unidas. Oito relatores da ONU lembraram ao governo equatoriano que terrorismo e crime organizado são fenômenos distintos e alertaram que a confusão entre esses conceitos pode ser utilizada para justificar o uso ilegal da força e restrições aos direitos humanos.

O presidente Daniel Noboa reagiu às críticas afirmando que a ONU deveria deixar de lado inclinações ideológicas e concentrar-se na proteção da vida da população. Segundo ele, também é necessário avaliar a situação daqueles que cometem crimes de forma recorrente.

Para o pesquisador Luis Córdova, o Equador atravessa um processo de autocratização que, diferentemente do ocorrido em El Salvador, não decorre do êxito no combate à violência, mas do fracasso da estratégia de segurança adotada pelo governo.

Na avaliação de Córdova, como Noboa não conseguiu consolidar a percepção de melhora na segurança pública, restaria ao governo restringir gradualmente os mecanismos democráticos, estimulando a autocensura da imprensa e reduzindo o espaço para vozes políticas divergentes.

Nos últimos dias, Noboa rejeitou as acusações de enfraquecimento da democracia.

“Não se pode dizer que eu seja um ditador. Me insultam e insultam minha família. Algumas organizações políticas que me acusam têm vínculos com o narcotráfico e tentam jogar a culpa em nós. Isso deveria ser investigado. Nós estamos apenas tentando fazer cumprir a lei”, declarou.

Diante desse cenário, a pesquisadora Sichel defende que o principal questionamento sobre a experiência equatoriana inspirada no modelo de El Salvador é definir como a sociedade deseja ser governada.

Segundo ela, pesquisas do Projeto de Opinião Pública da América Latina (LAPOP) e do Latinobarómetro mostram que uma parcela significativa da população equatoriana está disposta a aceitar o enfraquecimento de instituições independentes e até da própria democracia em troca de um governante capaz de solucionar os problemas de segurança.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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