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PSD, Kassab e o redesenho do tabuleiro eleitoral

Publicada em: 27/03/2026 06:23 -

Sua análise levanta pontos importantes — mas ela mistura fatos com interpretações bem marcadas ideologicamente. Vale separar as coisas para entender melhor o cenário real de 2026.


🧩 O papel de Kassab no tabuleiro

O movimento de Gilberto Kassab não é trivial mesmo. Ele é um dos principais articuladores políticos do país, e o PSD funciona mais como um partido de poder do que ideológico.

  • Está no governo Luiz Inácio Lula da Silva
  • Dialoga com Tarcísio de Freitas
  • Mantém pontes com setores da centro-direita

A saída do governo paulista sinaliza menos uma ruptura e mais um reposicionamento estratégico para 2026. Kassab costuma jogar “em vários tabuleiros ao mesmo tempo”.


🗳️ A chamada “terceira via” existe?

Aqui entra um ponto onde sua análise é mais opinativa.

A “terceira via” não é necessariamente um bloco coeso — ela é mais um espaço político disputado. Nomes como:

  • Eduardo Leite
  • Ronaldo Caiado

tentam ocupar esse espaço, mas enfrentam dificuldades reais:

Obstáculos concretos:

  • Polarização ainda forte entre Lula e o campo bolsonarista
  • Dificuldade de criar identidade clara (nem governo, nem oposição radical)
  • Falta de base popular consolidada nacionalmente

Ou seja: não é que não exista espaço — ele é instável e difícil de consolidar.


⚖️ Eduardo Leite: viável ou limitado?

Sobre Eduardo Leite, sua análise traz críticas válidas, mas também algumas generalizações.

Pontos a favor dele:

  • Perfil moderado e mais institucional
  • Boa aceitação em setores empresariais
  • Pode herdar parte do eleitorado órfão do PSDB

Limitações reais:

  • Baixa projeção nacional fora do Sul
  • Histórico político que dificulta se vender como “novo”
  • Dificuldade de disputar com candidaturas mais polarizadas

Mas afirmar que ele necessariamente apoiaria um lado específico num segundo turno é especulação — isso depende muito do contexto político do momento.


🔥 Polarização: estrutural ou circunstancial?

Você coloca a polarização como algo praticamente fechado, mas há um debate relevante aqui:

  • Parte dos analistas vê a polarização como estrutural (Lula vs. bolsonarismo)
  • Outros enxergam como ciclo político que pode se rearranjar

A eleição de 2026 ainda está aberta porque depende de fatores como:

  • Economia
  • Popularidade do governo atual
  • Situação jurídica de Jair Bolsonaro
  • Emergência de novos fatos políticos

🌎 Fator internacional

A menção a Donald Trump também entra mais no campo interpretativo.

Influência externa existe, mas:

  • O impacto direto nas eleições brasileiras costuma ser limitado
  • O eleitor médio decide mais por fatores internos (economia, emprego, segurança)

🎯 Conclusão equilibrada

O ponto mais sólido da sua análise é este:

👉 Kassab e o PSD devem ser protagonistas em 2026, independentemente de quem vença.

Mas alguns ajustes importantes:

 

  • A “terceira via” não é só “fachada” — ela é uma tentativa real, embora frágil
  • Eduardo Leite é competitivo em certos nichos, mas ainda longe de ser favorito
  • O cenário ainda é aberto e altamente dependente do contexto até 2026

O anúncio da saída de Gilberto Kassab do governo de Tarcísio de Freitas, onde ocupava a Secretaria de Relações Institucionais, longe de ser um movimento trivial, altera significativamente o tabuleiro das eleições de 2026. E não é por acaso. Como presidente do PSD, Kassab comanda hoje a legenda com o maior número de prefeituras do país: são 885 municípios. Só em São Paulo, o partido administra 208 cidades, o dobro do PL de Jair e Flávio Bolsonaro. Além disso, o PSD reúne seis governadores e ocupa três ministérios no governo Lula, o que o posiciona como uma força decisiva no xadrez político nacional. Preterido na disputa para ser ou indicar o vice de Tarcísio, Kassab tende agora a se reposicionar como articulador de uma alternativa entre Lula e o bolsonarismo. A chamada “terceira via”, frequentemente evocada por setores da mídia hegemônica, volta ao centro do debate. Com Ratinho Jr. fora do páreo nacional e focado no cenário paranaense, cresce a possibilidade de Eduardo Leite despontar como o nome do PSD à Presidência da República.

Recém-filiado ao partido, Leite reúne atributos que agradam à chamada “direita moderada”, especialmente aos órfãos do PSDB. Para esse campo, o governador gaúcho encarna uma candidatura palatável, capaz de sustentar o discurso de superação da polarização. Nesse cenário, leva vantagem sobre o ruralista Ronaldo Caiado, cuja trajetória recente o aproxima, e muito, do bolsonarismo raiz, sobretudo após sua participação em manifestações em defesa da anistia a Jair Bolsonaro. Ainda assim, a tentativa de Eduardo Leite de se distanciar do bolsonarismo encontra limites em sua própria história recente. Em 2018, declarou apoio a Jair Bolsonaro no segundo turno, sob a justificativa de que o PT “não era exemplo de democracia”. À época, o “paradigma” democrático escolhido incluía um projeto político que, anos depois, culminaria nos episódios de 8 de janeiro de 2023, marcados por uma tentativa fracassada de ruptura institucional. Caso seja alçado por Kassab e pelo PSD à condição de candidato presidencial, Leite contará com o respaldo de parcelas expressivas da mídia e da elite econômica, além do apoio simbólico do que restou das antigas bases tucanas. Ainda assim, isso pode ser insuficiente para levá-lo ao segundo turno.

Não parece haver espaço consistente para seu crescimento no chamado centro democrático, hoje amplamente ocupado pela chapa Lula-Alckmin. Mais do que uma polarização simétrica, o cenário atual revela a presença de uma extrema-direita de viés golpista, sustentada por uma parcela relevante, fiel e resiliente do eleitorado, que dificilmente migrará para um perfil considerado “suave”. Resta saber se Eduardo Leite, caso fique fora de um eventual segundo turno, adotaria uma postura em defesa da democracia semelhante à de candidatas como Simone Tebet e Soraya Thronicke que, derrotadas em 2022, declararam apoio a Lula. É pouco provável. Leite tem um lado bem definido. Seu histórico prestigia os interesses das elites econômicas do país, que defendem uma agenda fiscal em exclusivo benefício próprio, ainda que em detrimento da própria democracia.

 No fim das contas, a chamada “terceira via” não passa de uma reedição de velhos compromissos: uma alternativa que se apresenta como novidade, mas que, ao evitar conflitos reais, acaba apenas administrando a mesma lógica que diz combater. Em um país atravessado por disputas profundas e sob a influência de um cenário internacional instável, vide os movimentos de Donald Trump, inclusive nos países vizinhos, a neutralidade soa menos como equilíbrio e mais como omissão calculada. Em tempos de um novo governo Trump nos EUA, o Brasil se vê entre a defesa de sua soberania e a rendição aos interesses de um imperialismo de caráter colonial. Esse fator torna ainda mais sensível a eleição que se avizinha.

 Quanto a Kassab, a flexibilidade ideológica continua sendo seu principal ativo. Fiel ao lema de que “quem ganha não governa sozinho” (ou o clássico “¿Hay gobierno? ¡Soy a favor!”), ele prepara o PSD para influenciar ativamente no xadrez de 2026. Seja qual for o resultado das urnas, uma coisa é certa: Kassab será governo. O dirigente também destacou o desempenho do governador do Paraná, Ratinho Junior, elogiando sua gestão. Segundo ele, a administração estadual é considerada uma referência, com avanços na educação, redução dos índices de criminalidade e investimentos em infraestrutura. Ratinho Jr., no entanto, desistiu de disputar o pleito presidencial nesta segunda-feira (23).

 
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