A declaração foi dada durante encontro de Kassab e Ronaldo Caiado (PSD) com empresários em Higienópolis, na região central da cidade de São Paulo. O objetivo do encontro, promovido por Andrea Matarazzo, era apresentar as propostas da chapa que concorre à presidência para o país. Mais de 200 empresários e aliados participaram do encontro, de setores como agro, indústria e mineração. Caiado e Kassab ficaram ao lado de Aldo Rebelo, coordenador político da campanha, no palco. A plateia era variada. Entre os presentes, estavam a socialite Narcisa Tamborindeguy, que assistiu às falas da primeira fileira, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, o ex-ministro da Justiça Nelson Jobim e o secretário estadual da Saúde, Eleuses Paiva. Caiado focou em falar de sua experiência na política, foi aplaudido quando mencionou a aprovação alta em Goiás, fez críticas a Lula e Flávio e disse que governará para "pacificar o Brasil".
A declaração de Gilberto Kassab coloca a campanha de Ronaldo Caiado em uma estratégia bastante clara: tentar se apresentar como a alternativa ao confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Kassab sustenta que o Centrão, embora não tenha formalizado uma candidatura própria, estaria mais próximo de Lula. Ao mesmo tempo, aposta que o início da campanha eleitoral e da propaganda de rádio e TV exporá Flávio Bolsonaro a um desgaste maior. Essa é uma avaliação política de Kassab, e não uma conclusão objetiva sobre o resultado da eleição.
O ponto mais relevante para Caiado é o tempo de televisão. Kassab afirma que a desistência de candidaturas de partidos do Centrão beneficiou diretamente o candidato do PSD, que teria passado de cerca de 50 segundos para aproximadamente 2 minutos e 20 segundos. A campanha de Caiado vem tratando a propaganda eleitoral como uma oportunidade para ampliar seu conhecimento nacional.
O cenário das pesquisas, porém, mostra que Flávio ainda está à frente de Caiado. Na CNT/MDA divulgada em 11 de agosto, Lula tinha 42,4%, Flávio 28,7% e Caiado 4%. Na BTG/Nexus, divulgada em 10 de agosto, os números eram 40%, 35% e 5%, respectivamente.
Assim, a fala de Kassab parece cumprir dois objetivos: desgastar Flávio Bolsonaro no campo da direita e vender Caiado como uma terceira via competitiva, apostando que maior exposição na televisão e o início efetivo da campanha poderão alterar o quadro atual. A própria campanha de Caiado vem reforçando a ideia de que ele representa uma alternativa à polarização entre Lula e o bolsonarismo.
A leitura apresentada faz sentido como interpretação da estratégia eleitoral da chapa, e as declarações recentes reforçam esse enquadramento. Em encontro com empresários em São Paulo, Kassab procurou apresentar Caiado como uma alternativa aos dois polos que hoje concentram a disputa nacional. A imprensa também registrou que o PSD aposta em encontros empresariais e na exposição de Caiado como uma candidatura de direita não vinculada diretamente ao bolsonarismo.
O discurso de “pacificação” não é circunstancial. Caiado vem utilizando essa bandeira desde o lançamento de sua pré-candidatura e, após a oficialização da chapa com Kassab, voltou a associá-la à necessidade de superar a polarização entre esquerda e direita.
Há, porém, uma nuance importante: Caiado não se apresenta simplesmente como um candidato de centro. Ele mantém posições identificadas com a direita, critica Lula e o bolsonarismo e, inclusive, defende anistia/indulto para Jair Bolsonaro como parte de sua proposta de pacificação.
Assim, a estratégia pode ser resumida em três movimentos:
- Romper a lógica Lula x Bolsonaro, apresentando a eleição como uma disputa que pode ir além dos dois campos.
- Atrair o eleitorado de direita que não se identifica com Flávio Bolsonaro, sem necessariamente se aproximar do campo lulista.
- Conquistar setores empresariais e eleitores preocupados com estabilidade, utilizando a experiência administrativa de Caiado e o discurso de pacificação como elementos centrais.
Kassab, nesse contexto, cumpre um papel político relevante: sua fala tenta transformar a candidatura de Caiado de uma candidatura regional de direita em um projeto nacional capaz de ocupar o espaço entre a polarização petista e bolsonarista. A dificuldade é que essa posição precisa conciliar a identidade de direita de Caiado com a promessa de superar justamente a polarização que marcou a política brasileira nos últimos anos.
Portanto, a frase “alternativa ao confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro” descreve bem o posicionamento que a chapa vem tentando construir — mas seria mais preciso dizer “uma alternativa de direita ao confronto entre os dois principais polos”, e não uma candidatura simplesmente de centro.
Comentários