Você paga imposto ao receber salário, ao comprar comida e até ao ligar a luz de casa. A sensação de muitos brasileiros é de que o dinheiro some e não retorna em serviços públicos na mesma proporção.
Em 2026, ano eleitoral, o tema ganha ainda mais espaço no debate. O g1 ouviu especialistas para explicar por que os impostos pesam tanto no bolso do brasileiro — e que medidas os governos podem adotar para aliviar esse impacto, além de simplesmente reduzir tributos.
O brasileiro paga muito imposto?
Os dados oficiais mais recentes, de 2024, mostram que a carga tributária total do Brasil — tudo o que foi pago em impostos por pessoas físicas e empresas — chegou a 32,2% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior nível da série histórica. Ou seja, nunca se arrecadou tanto em impostos no país em relação ao tamanho da economia.
Na comparação internacional, o Brasil aparece abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo que reúne nações ricas e alguns países em desenvolvimento. Ainda assim, a carga tributária brasileira é bem superior à média da América Latina e do Caribe.
Em 2023, os percentuais foram:
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Países da OCDE: 34,1% do PIB
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América Latina e Caribe: 21,3% do PIB
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Brasil: 30,2% do PIB
Pouco retorno em serviços públicos
Apesar de ter uma carga tributária próxima à de países desenvolvidos, o Brasil não entrega serviços públicos com a mesma qualidade. Áreas como saúde, educação, infraestrutura e segurança consomem muitos recursos, mas ainda enfrentam deficiências.
“O Brasil tem, por exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS), que é referência mundial, mas que poderia oferecer um serviço melhor. Isso ocorre também na educação, na infraestrutura e na segurança”, afirma o professor de Finanças Públicas da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Piscitelli.
Essa percepção de baixo retorno gera rejeição aos impostos, algo que não ocorre com a mesma intensidade em países onde os serviços públicos atendem melhor às expectativas da população.
“Em países onde há retorno claro, as pessoas não são tão críticas à tributação. No Brasil, o tributo acaba sendo uma norma de rejeição social, porque se paga muito e se vê pouco”, explica Bianca Xavier, professora de Direito Tributário da FGV e diretora da Sociedade Brasileira de Direito Tributário (SBDT).
Peso desigual no bolso
Outro fator que amplia a sensação de injustiça é a forma desigual como os impostos são cobrados. Proporcionalmente, quem ganha menos paga mais.
Isso ocorre porque o Brasil arrecada muito por meio de tributos sobre o consumo — embutidos nos preços de produtos e serviços — e relativamente pouco por meio de impostos sobre renda e patrimônio. Como todos pagam a mesma alíquota ao consumir, esses impostos comprometem uma parcela maior da renda das famílias mais pobres.
Em 2024, os tributos sobre bens e serviços somaram R$ 1,64 trilhão, o equivalente a 14% do PIB e a 43,5% de toda a arrecadação, segundo a Receita Federal.
Na outra ponta, os mais ricos pagam proporcionalmente menos. Um estudo de 2025 mostra que pessoas com renda anual acima de R$ 5,5 milhões tiveram uma alíquota efetiva média de 20,6%, enquanto o brasileiro médio compromete cerca de 42,5% da renda com impostos.
Já os tributos sobre lucro, renda e ganho de capital totalizaram R$ 1,07 trilhão em 2024 — 9,1% do PIB, abaixo da média da OCDE, que foi de 12,1% do PIB em 2023.
O que pode ser feito?
Especialistas avaliam que reduzir o peso dos impostos passa, principalmente, por melhorar a forma como o governo gasta os recursos públicos. O Estado brasileiro gasta muito e nem sempre gasta bem. Com despesas mais eficientes e melhor direcionadas, a carga tributária poderia pesar menos, mesmo sem cortes diretos de impostos.
Um exemplo são os subsídios e benefícios fiscais concedidos a setores específicos da economia. Esses incentivos reduzem a arrecadação e nem sempre geram retorno social ou econômico claro.
Dados do Ministério da Fazenda mostram que os gastos tributários — como isenções, deduções e regimes especiais — somaram mais de R$ 540 bilhões no último ano. Para especialistas, parte desses benefícios deveria ser reavaliada.
“O beneficiário deveria demonstrar, com critérios objetivos, que está devolvendo à sociedade um benefício que justifique essa renúncia”, afirma Piscitelli.
Segundo Bianca Xavier, os subsídios funcionam melhor quando estão ligados a políticas públicas com impacto direto na vida da população. “Quando o benefício é concedido apenas a um setor econômico, o efeito para a sociedade costuma ser pouco perceptível”, diz.
Cashback tributário
Outra alternativa é o cashback tributário, previsto na reforma tributária e com início programado para 2027. O mecanismo prevê a devolução de parte dos impostos pagos no consumo às famílias de baixa renda.
A devolução será feita, em geral, por meio do CPF do consumidor e integrada a programas sociais já existentes. Para os especialistas, é uma forma direta de reduzir o impacto dos impostos sobre quem mais precisa.
“O cashback é uma forma justa de desonerar quem precisa. O benefício não está ligado ao produto, mas a quem está comprando”, afirma Bianca Xavier.
Além disso, a reforma tributária unifica impostos sobre o consumo e busca simplificar o sistema, o que pode reduzir custos para as empresas. As mudanças já aprovadas pelo Congresso serão implementadas de forma gradual.
Reforma do Imposto de Renda
A redução do Imposto de Renda também é apontada como medida para aliviar o peso dos tributos sobre quem ganha menos. Desde o início do ano, passou a valer a isenção total para rendas mensais de até R$ 5 mil, além de uma redução gradual para quem ganha até R$ 7.350.
Segundo o Ministério da Fazenda, mais de 10 milhões de brasileiros ficaram totalmente isentos. Para compensar a perda de arrecadação, o governo criou um imposto mínimo de até 10% para quem recebe mais de R$ 600 mil por ano e passou a tributar dividendos acima de R$ 50 mil mensais. Cerca de 141 mil contribuintes devem ser afetados.
A expectativa do governo é que a medida estimule a economia, já que a renda livre de impostos tende a ser direcionada ao consumo, investimentos e outros gastos, movimentando diferentes setores.
