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Janja: a mulher que o Brasil quer calar — e, junto dela, todas nós

Publicada em: 24/12/2025 00:58 -

1. Avaliação crítica

Pontos muito fortes

  • Tese bem definida desde o início: o enquadramento como silenciamento de gênero é claro e sustentado até o fim.

  • Uso inteligente de autores (Banaji, Greenwald, Valian, Bell Hooks, Beauvoir) sem academicismo excessivo.

  • Conexão entre o caso Janja e o sistema político — você evita o erro comum de personalizar demais.

  • Testemunho pessoal no final dá legitimidade e fecha o argumento com autoridade moral.

  • Chamado à ação concreto (cotas de assentos), não abstrato.

Ajustes finos sugeridos

  • Em alguns trechos, frases longas podem ser encurtadas para ganhar contundência.

  • O parágrafo sobre “boa parte dos eleitores de Lula” pode soar defensivo para leitores progressistas — vale deixar ainda mais claro que o problema é estrutural, não ideológico.

  • O fechamento é bom, mas pode ser ligeiramente mais incisivo, reforçando urgência histórica.

Nada aqui é problema de conteúdo — são ajustes de ritmo e impacto.


2. Sugestões pontuais de lapidação

Exemplo 1 – Abertura (mais impacto):
Você já começa bem, mas pode ganhar ainda mais força com uma frase mais curta logo de saída.

Não é apenas discordância política: é silenciamento dirigido às mulheres que ousam ocupar o espaço público.

👉 Excelente. Manteria, mas isolaria como frase-parágrafo.

Exemplo 2 – Parágrafo do “quarto”
Talvez seja o trecho mais forte simbolicamente. Dá para deixá-lo ainda mais incisivo com menos palavras.

Exemplo 3 – Testemunho pessoal
Está ótimo. Apenas sugeriria reforçar que suas derrotas não foram eleitorais apenas, mas sistêmicas.


3. Versão levemente revisada (lapidação, não reescrita)

 

Desde a campanha que reconduziu Lula ao Planalto, Janja se tornou alvo de ataques nas redes e na imprensa.

Não é apenas discordância política.

É silenciamento dirigido às mulheres que ousam ocupar o espaço público.

Esse incômodo — que atravessa inclusive parte do eleitorado de Lula — revela algo maior do que disputa partidária: a dificuldade do país em aceitar uma mulher com voz ativa, segura e que não pede licença para existir.

Parte disso se explica pelo viés inconsciente de gênero, conceito estudado por Mahzarin Banaji (Harvard), Anthony Greenwald (University of Washington) e Virginia Valian (CUNY). Suas pesquisas mostram que associamos liderança ao masculino — por isso, uma mulher assertiva “assusta”, enquanto um homem com o mesmo comportamento é visto como “decidido”.

A fronteira entre o privado, onde sempre nos quiseram, e o público, historicamente reservado aos homens, ajuda a entender o desconforto com Janja. Já ouvi gente dizer que “ela pode opinar — desde que no quarto”. Bell Hooks explica que o patriarcado tolera mulheres fortes apenas no espaço doméstico, onde não ameaçam o poder instituído. Simone de Beauvoir mostrou como fomos educadas para viver “para o Outro”, não para nós — muito menos para a vida pública.

Há ainda outro elemento decisivo: espera-se que mulheres no poder se ocupem das pautas “sociais”, do cuidado, do macio, do maternal. Dados da ONU Mulheres mostram que, no mundo inteiro, ministras são maioria em áreas de cuidado e raras em economia, finanças e infraestrutura. É o velho roteiro da primeira-dama que coordena projetos sociais, serve chá no jardim e não atravessa a porta do gabinete.

Janja rompe esse roteiro.

Ela senta à mesa do poder.

E muitos não toleram isso.

Pela primeira vez, uma primeira-dama exerce protagonismo político, opina em público e influencia o presidente diante das câmeras. Nada de “bela, recatada e do lar”. Embora eu a ache bela, de recatada e do lar ela não tem nada.

Essa dificuldade em aceitar mulheres no poder atinge todas nós. Embora sejamos maioria do eleitorado, ocupamos apenas 18% da Câmara dos Deputados, o que coloca o Brasil na 133ª posição mundial em presença feminina no Parlamento.

Não é por falta de interesse. Muitas mulheres querem a política — conheço dezenas. A barreira é estrutural. A cota de 30% de candidaturas virou regra para inglês ver: candidaturas laranjas, mulheres apenas para preencher listas, recursos desviados para campanhas masculinas.

Outros países foram mais sérios. Noruega, Suécia, Finlândia, Islândia e Ruanda avançaram com cotas de assentos e políticas afirmativas, alcançando patamares próximos da paridade.

Eu vivi essa realidade. Entrei na política em 2018 como coordenadora-geral da campanha da deputada Tabata Amaral e fui sua chefe de gabinete em Brasília. Depois, voltei ao interior de Minas para construir minha trajetória. Disputei três eleições e perdi as três — mesmo sendo bem votada. Repetidamente ouvi que eu era a mais preparada, inclusive de pessoas que votariam no meu adversário, um homem.

Por isso, encerro com um chamado. Contamos com a primeira-dama Janja — e com todas as mulheres donas de sua voz — para pressionar por mudanças reais, como cotas de assentos que garantam ao menos 30% das cadeiras ocupadas por mulheres.

Não queremos ser candidatas de fachada.
Queremos ser eleitas.

O Congresso não fará isso sozinho. A maioria quer preservar seus privilégios. É um chamado para que mulheres influentes se unam: pressionem por cotas reais, apoiem campanhas femininas e incentivem a sociedade a votar em mulheres.

Só assim teremos um país mais justo, mais próspero e uma democracia que funcione — e represente, de fato, a todos.

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