São Paulo é um município brasileiro, capital do estado de São Paulo e cidade mais populosa do Brasil, da América e de todo o hemisfério sul. Listada pela Globalization and World Cities Research Network (GaWC) como uma cidade global alfa, exerce significativa influência internacional no comércio, finanças, artes e entretenimento.[8] É a área urbana mais populosa do mundo fora da Ásia e a cidade lusófona mais populosa do planeta. Seu nome homenageia Paulo de Tarso e seus habitantes são conhecidos como paulistanos. O lema latino da cidade é Non ducor, duco, que se traduz como "Não sou conduzido, conduzo".[9][10]
Fundada em 1554 por padres jesuítas, uma das cidades mais antigas continuadamente habitadas do continente americano, foi o centro dos colonizadores bandeirantes durante o Brasil Colônia, mas tornou-se uma força econômica relevante durante o ciclo do café em meados do século XIX. A partir desse período, transformou-se em palco de eventos marcantes da história brasileira, como o Grito do Ipiranga, a Semana de Arte Moderna, a Revolução de 1932 e o movimento Diretas Já. No século XX, consolidou seu papel como principal centro econômico nacional com a industrialização no Brasil, que fez da cidade um caldeirão cosmopolita, lar das maiores diásporas árabes, italianas e japonesas do mundo, com bairros étnicos como Bixiga, Bom Retiro e Liberdade, além de pessoas de mais de 200 outros países.[11] A região metropolitana da cidade, popularmente chamada de Grande São Paulo, é a mais populosa do Brasil e uma das mais populosas do mundo, com cerca de 20 milhões de habitantes. O processo de conurbação entre as regiões metropolitanas do entorno da Grande São Paulo também criou a Macrometrópole Paulista, a primeira megalópole do hemisfério sul, com mais de 30 milhões de habitantes.[12][13]
São Paulo é a maior economia urbana da América Latina,[14] representando cerca de 10% do PIB brasileiro e por volta de 30% do PIB paulista.[15] A cidade é sede da B3, a maior bolsa de valores latino-americana em capitalização de mercado,[16] e possui diversos distritos financeiros, principalmente nas áreas ao redor das avenidas Paulista, Faria Lima e Berrini. São Paulo abriga 63% das multinacionais estabelecidas no Brasil[17] e é a fonte de cerca de um terço da produção científica brasileira,[18] sendo um dos 100 clusters de inovação e tecnologia mais avançados do mundo.[19] Sua principal universidade, a Universidade de São Paulo, é frequentemente considerada a melhor do Brasil e da América Latina,[20][21] enquanto a cidade é regularmente classificada como uma das melhores do mundo para ser um estudante universitário nos relatórios anuais QS World University Rankings.[22][23] A metrópole também abriga vários dos arranha-céus mais altos do Brasil, como os edifícios Alto das Nações, Platina 220, Figueira Altos do Tatuapé, Mirante do Vale, Itália, Altino Arantes e Torre Norte. É a capital com o melhor saneamento básico,[24] a segunda mais desenvolvida, de acordo com o Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal (2025),[25] e a sexta em Índice de Progresso Social (IPS) do país.[26]
A cidade é um dos principais pólos culturais da América Latina e abriga monumentos, parques e museus como Memorial da América Latina, Parque do Ibirapuera, Museu do Ipiranga, Pinacoteca, Cinemateca, Itaú Cultural, Museu de Arte de São Paulo, Museu Catavento, Museu do Futebol, Museu da Língua Portuguesa e Museu da Imagem e do Som. Além disso, recebe eventos relevantes como Bienal Internacional de Arte de São Paulo, São Paulo Fashion Week, São Paulo Jazz Festival, Lollapalooza, Primavera Sound, The Town Festival, Comic Con Experience e Parada do Orgulho LGBT, o segundo maior evento LGBT do mundo. São Paulo também já foi sede de muitos eventos esportivos, como as Copas do Mundo FIFA de 1950 e 2014, os Jogos Pan-Americanos de 1963 e a São Paulo Indy 300, além de sediar anualmente o Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1 e a Corrida Internacional de São Silvestre.
História
Primeiros povos
A área onde está situada a Grande São Paulo era habitada principalmente pela tribo indígena dos guaianás no período pré-cabralino, povo que também dominava a região do atual Vale do Ribeira.[27] Os índios guaianás eram caçadores-coletores nômades. Eles não habitavam em ocas e tinham o hábito de viver em covas forradas com peles de animais e ramas. No início do século XIX, esse povo indígena estava extinto.[28]
Fundação
A povoação de São Paulo dos Campos de Piratininga (topônimo indígena que significa “peixe seco” ou "peixe a secar", após a cheia do rio),[30] por sua vez, surgiu em 25 de janeiro de 1554 com a construção de um colégio jesuíta (atual Pátio do Colégio) por doze padres, entre eles Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, no alto de uma colina escarpada, entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí.[31] Tal colégio, que funcionava num barracão feito de taipa de pilão, tinha por finalidade a catequese dos índios que viviam na região do Planalto de Piratininga, separados do litoral pela Serra do Mar, chamada pelos índios de "Serra de Paranapiacaba".[32] O nome São Paulo foi escolhido porque o dia da fundação do colégio foi 25 de janeiro, mesmo dia no qual a Igreja Católica celebra a conversão do apóstolo Paulo de Tarso, conforme disse o padre José de Anchieta em carta à Companhia de Jesus: "A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos nossa casa!".[33]
O povoamento da região do Pátio do Colégio teve início em 1560, quando, na visita de Mem de Sá, governador-geral do Brasil, à Capitania de São Vicente, este ordenou a transferência da população da vila de Santo André da Borda do Campo, fundada em 1553 por João Ramalho e situada no caminho do mar (atual região do ABC paulista),[34][35] para os arredores do colégio, denominado "Colégio de São Paulo de Piratininga", local alto e mais adequado (uma colina escarpada vizinha a uma grande várzea, a Várzea do Carmo, por um lado e, pelo outro lado, por outra baixada, o Vale do Anhangabaú), para melhor se proteger dos ataques dos índios.[31][36]
Em 1562, no entanto, incomodados com a aliança entre tupiniquins e portugueses, os índios tupinambás, unidos na Confederação dos Tamoios, lançam uma série de ataques contra a vila em 9 de julho, no episódio conhecido como Cerco de Piratininga. A defesa organizada por Tibiriçá e João Ramalho obriga os indígenas a recuarem em 10 de julho do mesmo ano.[37] Ainda em 1590, com a iminência de um novo ataque a cidade novamente se prepara com obras de defesa. Na virada do século XVII, os ataques de indígenas diminuem e se consolida o povoamento, nas palavras de Alcântara Machado: "Afinal, com o recuo, a submissão e o extermínio do gentio vizinho, mais folgada se torna a condição dos paulistanos e começa o aproveitamento regular do chão".[38]
Capital de capitania
São Paulo permaneceu, durante os dois séculos seguintes, como uma vila pobre e isolada do centro de gravidade da colônia, o litoral, e se mantinha por meio de lavouras de subsistência. São Paulo foi, por muito tempo, a única vila no interior do Brasil. Esse isolamento de São Paulo se dava principalmente porque era dificílimo subir a Serra do Mar a pé da Vila de Santos ou da Vila de São Vicente para o Planalto de Piratininga. Subida esta que era feita pelo Caminho do Padre José de Anchieta.[39] Mem de Sá, quando de sua visita à Capitania de São Vicente, proibira o uso do "Caminho do Piraiquê" (hoje Piaçaguera), por serem, nele, frequentes os ataques dos índios.[31]
No século XVII, homens que trabalhavam na região sudeste com a exploração de minérios, escravização de indígenas e captura de escravos fugitivo, que em sua época eram conhecidos como "paulistas" ou "sertanistas",[40] foram os responsáveis pelo início das expedições das bandeiras, que geralmente partiam da cidade de São Paulo seguindo o curso dos rios, criando trilhas e pontos de apoio que depois se transformariam em cidades. Essas explorações, que acabaram por ampliar o território da colônia do Estado do Brasil, tinham como principal objetivo a captura de indígenas para a escravidão através de ataques à aldeias e missões jesuíticas. Os principais "bandeirantes", como esses homens ficaram conhecidos posteriormente, foram Fernão Dias Pais, Manuel de Borba Gato, Bartolomeu Bueno da Silva (Anhanguera), Domingos Jorge Velho, Antônio Raposo Tavares, Nicolau Barreto e Manuel Preto.[41]
Em 22 de março de 1681, o Marquês de Cascais, donatário da Capitania de São Vicente, transferiu a capital da Capitania de São Vicente para a Vila de São Paulo, que passou a ser a "Cabeça da Capitania". A nova capital foi instalada, em 23 de abril de 1683, com grandes festejos públicos.[42]
Por ser a região mais pobre da colônia portuguesa na América, em São Paulo teve início a atividade dos bandeirantes, que se dispersaram pelo interior do país à caça de índios porque, sendo extremamente pobres, os paulistas não podiam comprar escravos africanos. Saíam, também, em busca de ouro e de diamantes. A descoberta do ouro na região de Minas Gerais, na década de 1690, fez com que as atenções do reino se voltassem para São Paulo.[43]
Foi criada, então, em 3 de novembro de 1709, a nova Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, quando foram compradas, pela coroa portuguesa, a Capitania de São Paulo e a Capitania de Santo Amaro de seus antigos donatários. Em 11 de julho de 1711, a Vila de São Paulo foi elevada à categoria de cidade. Logo em seguida, por volta de 1720, foi encontrado ouro, pelos bandeirantes, nas regiões onde se encontram hoje a cidade de Cuiabá e a Cidade de Goiás, fato que levou à expansão do território brasileiro para além da Linha de Tordesilhas.[44]
Quando o ouro esgotou, no final do século XVIII, teve início o ciclo econômico paulista da cana-de-açúcar, que se espalhou pelo interior da Capitania de São Paulo. Pela cidade de São Paulo, era escoada a produção açucareira para o Porto de Santos. Nessa época, foi construída a primeira estrada moderna entre São Paulo e o litoral: a Calçada do Lorena.[45]
